Por Dra. Carisi Anne Polanczyk
PEV Consultoria em Saúde
O ESC Congress 2026, realizado em Munique entre 28 e 31 de agosto, reuniu mais de 30 mil profissionais de mais de 150 países no que segue sendo o maior encontro de cardiologia do mundo. Novos medicamentos, quatro novas diretrizes clínicas e uma agenda cada vez mais dominada pela inteligência artificial marcaram a edição deste ano.
Mas, sob a perspectiva da PEV, o dado mais relevante não está apenas na ciência apresentada, mas sim em como essa ciência está sendo construída: com o paciente como protagonista, com estudos de escala populacional real e com a IA já tratada como parte estrutural, e não acessória, da prática clínica.
A integração cardiometabólica e renal ganha um documento próprio
Pela primeira vez, a ESC publicou uma diretriz inteiramente dedicada à interseção entre doença cardiovascular e doença renal crônica, estruturada em torno do conceito “STAMP on CKD” — recomendando rastreio sistemático de função renal e albuminúria em todo paciente cardiovascular, com identificação precoce da DRC e início de tratamento sem demora. Some-se a isso o TRANQUILITY (inflamação e DRC) e a ampliação do debate sobre cardiometabolismo, e fica claro: a fronteira entre cardiologia, nefrologia e endocrinologia está sendo formalmente redesenhada — não é mais integração informal entre especialidades, é diretriz.
A a obesidade segue como elo causal central — motor de hipertensão, diabetes tipo 2, doença renal crônica e insuficiência cardíaca — e seu enfrentamento exige integrar, desde a atenção primária, rastreio ativo, manejo farmacológico (incluindo os agonistas de GLP-1, hoje com evidência crescente de benefício cardiovascular direto) e mudança de estilo de vida a protocolos assistenciais unificados entre as três especialidades, em vez de tratá-la como comorbidade isolada de manejo tardio.
Diretrizes atualizadas: quatro novos documentos e a 5ª Definição Universal de Infarto
O congresso apresentou quatro novas diretrizes da ESC, além da 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio. A mais comentada foi a revisão completa das diretrizes de insuficiência cardíaca, que abandona a categoria de fração de ejeção “levemente reduzida” e adota um sistema de estadiamento (A a D) que cobre do risco à doença avançada, migrando também para um sistema de níveis de evidência mais próximo do modelo norte-americano.
A perspectiva da PEV: o que realmente muda a forma de gerar evidência
Para além dos destaques terapêuticos, três movimentos observados em Munique dialogam diretamente com o que defendemos na PEV como o futuro da avaliação em saúde:
- O paciente na construção da diretriz, não apenas como seu destinatário. As novas diretrizes de insuficiência cardíaca e a nova diretriz de reabilitação cardíaca trazem, pela primeira vez de forma sistemática, seções dedicadas à educação do paciente, ao autocuidado e à decisão compartilhada — e já disponibilizam versões específicas para pacientes dos três documentos lançados este ano (reabilitação cardíaca, insuficiência cardíaca e doença cardiovascular/renal). Isso é o reconhecimento de que o desfecho relatado pelo paciente (patient-reported outcome) precisa deixar de ser um anexo do desenho de estudo para se tornar um dos resultados que efetivamente definem sucesso terapêutico — exatamente a lógica que a PEV aplica quando estrutura avaliações econômicas e protocolos de pesquisa clínica para nossos clientes.
- Ensaios de escala populacional real, não apenas amostras clínicas. Estudos como o REACT (rastreamento de aterosclerose subclínica ao longo da vida adulta) e o DAN-RSV — ensaio randomizado da vacina RSVpreF contra hospitalizações cardiorrespiratórias, conduzido com mais de 130 mil participantes na Dinamarca — e o sueco SWITCH SWEDEHEART ilustram uma mudança de paradigma: da eficácia em subgrupos selecionados para o impacto mensurável de políticas de saúde em populações inteiras de países europeus. ilustram uma mudança de paradigma: da eficácia em subgrupos selecionados para o impacto mensurável de políticas de saúde em populações inteiras de países europeus. É esse tipo de desenho — pragmático, de base populacional, ligado a decisões de saúde pública — que permite transformar resultado clínico em evidência de valor para pagadores e gestores, o núcleo do trabalho de avaliação de tecnologias em saúde que a PEV desenvolve.
- Vacinação como prevenção cardiovascular, com evidência em construção. O ESC já publicou posicionamento reconhecendo a vacinação como estratégia legítima de prevenção cardiovascular, e o DAN-RSV é hoje um dos maiores ensaios randomizados nessa linha. É uma fronteira nova e promissora — mas a escala de evidência ainda está se consolidando (dezenas, não centenas de milhares de participantes nos estudos mais robustos até agora), o que reforça a necessidade de continuar acompanhando de perto os próximos resultados.
- A IA como copiloto — não como pauta isolada, mas como fio condutor. Pela primeira vez, a inteligência artificial não apareceu como uma sessão especial isolada, mas permeou discussões de diagnóstico, triagem, gestão de fluxo assistencial e apoio à decisão clínica em praticamente todas as áreas do congresso. O tom predominante entre os especialistas foi de cautela otimista: IA como ferramenta que amplia acesso e reduz desigualdades em saúde, desde que sua confiabilidade, segurança e integração aos fluxos clínicos existentes sejam tratadas com o mesmo rigor metodológico exigido de qualquer nova tecnologia em saúde — e não como promessa tecnológica desacoplada de evidência.
Conclusão
O ESC Congress 2026 confirma uma tendência que a PEV vem acompanhando de perto: a evidência em cardiologia está deixando de ser produzida apenas sobre o paciente e passando a ser construída com ele, em escala populacional e com tecnologia como parte estrutural do processo — não como apêndice. Para gestores de saúde, pagadores e instituições que planejam incorporação de tecnologia, isso significa um padrão mais elevado de exigência: já não basta eficácia em ensaio controlado; é preciso desfecho relevante para quem vive a doença, impacto mensurável em política pública e ferramentas de IA validadas com o mesmo rigor da farmacologia clássica.
Fontes: European Society of Cardiology (escardio.org); European Heart Journal, 2026 ESC Guidelines for the management of heart failure; Radcliffe Cardiology, ESC Congress 2026 Hot Line Trials; cardiovascularbusiness.com; touchCARDIO.
